41. As temíveis reuniões de médicos e dentistas

Como todas as primeiras segundas-feiras de cada mês, os médicos da Rede Rural de Saúde reuniam-se em La Esperanza, para apresentar os seus relatórios e, ocasionalmente, para receber uma palestra de um colega ou médico visitante.

 Nessa reunião, houve a notícia da adesão de 5 médicos cubanos. Alguns deles eram superqualificados, como o médico emergencial, com 20 anos de experiência, que foi trabalhar no lugar mais difícil de todos, na fronteira com a Colômbia.

A maioria dos doutores eram bacharéis costeiros da Universidade de Guayaquil, considerada uma das mais complicadas do país, por ser certificada como universidade categoria D. Era um covil de políticos oportunistas, principalmente de extrema esquerda, que colocavam professores entrando e saindo, davam o título aos alunos que aderiam à festa, participavam das manifestações, ou pagavam com dinheiro, ou sexo.

Essa universidade passou a ser controlada por um famoso criminoso, que traficava terras e assumiu a universidade, porque lá não podiam prendê-lo, porque a polícia não podia entrar.

Mas entre os médicos que se formaram por aquela universidade havia alguns excelentes profissionais, que viviam por conta própria, pois procuravam exercer a profissão em hospitais, onde viviam enquanto não estivessem nas salas de aula.

"Camaradas, deixe-me tirar uma foto", disse o único dentista da montanha.

- O que há de errado com sua cordilheira estúpida! Quem você pensa que é para tirar fotos de nós? - foi a resposta brutal de um médico recém-chegado, obeso e rude, que seu pai era um dos mais famosos narco-proxenetas de La Esperanza, dono de vários bordéis.

- O estúpido e rude é o seu gordo idiota! Máxima gritou com ele, que por ser da capital também era chamado de montanha pelo presidente da Rede Sanitária Rural Santo Tomás.

Máxima se aproximou do gordo enquanto o dentista tentava tranquilizá-la.

-Ignorante, você não sabe que por dizer montanha, como você disse ao nosso parceiro, você pode ir para a cadeia, se o médico seguir julgamento?

-Ninguém me chama de estúpido ou idiota e, pior ainda, de mulher!- Ele respondeu.

Quando Máxima estava perto do médico obeso, ela estava pronta para coçar seu rosto, para que ficasse marcado para o resto da vida. O diretor provincial da rede conseguiu interpor e prendê-la.

- Quieto. Parceiro - disse ao médico obeso - saia daqui e me espere lá fora falar depois da reunião.

Um dos médicos afro e indígenas, por ter pele negra mas cabelos lisos e se achar bonito, eram chamados de quase fofos, interveio a favor do médico gordo.

- O parceiro está certo. Se você não quer ser filmado, você não precisa filmar.

-Mas não precisava ser tão difícil-, disse a Dra. Máxima.

Nas reuniões dos médicos, o regionalismo foi vivido à tona, e como era o Litoral, não foram aceitos os povos serranos que se juntaram a nós ou passaram humildemente por zombarias, insultos e desprezos. Por esta razão, o único médico de Santa Ana, cidade da Serra Gaúcha, optou por nunca comparecer, justificando as suas ausências por trabalhar 22 dias seguidos de 8 dias de folga e os tirar nos primeiros 8 dias do mês, nos quais para os generais eram as reuniões mensais para entrega de relatórios, que eram entregues antes.

Os relatos se voltaram para a tortura, que aumentava a cada mês. Os médicos tinham que atender pelo menos 28 pacientes por dia e os dentistas 14.

- Quando eu cheguei eu atendia até 40 pacientes por dia, então não passou mais, agora é difícil ter mais de 20- disse Máxima.

-Mas seus colegas e os dentistas não têm problemas-observou o diretor.

-A dentista que trabalhava em Santo Tomas, comparecia apenas 1 dia por mês, mas cobrava como se trabalhasse 5 dias na semana. Eu vi a cópia dos laudos que ele apresentou outro dia, ele tinha pelo menos 16 pacientes por dia, 80 por semana, mais de 300 por mês.

Os relatos são uma grande mentira, que serve para esconder o número real de pacientes, mentem sobre doenças, alteram estatísticas e a realidade, permitem auxiliares ou enfermeiras, dispensam-se prescrições para pacientes que não existem, com os quais ganham dinheiro com os remédios que roubam do dispensário, além do fato de médicos e dentistas furtarem horas de trabalho da internet.

Essa denúncia alertou os médicos cubanos, que em Cuba, nem mesmo em seus sonhos, ousariam falsificar os relatórios, como foi feito na Rede Camponesa.

Em Cuba, os médicos não tinham que manter estatísticas, há outros funcionários que fazem e atuam como supervisores do trabalho do pessoal operativo, observou um dos médicos cubanos.

As palavras de Máxima foram consideradas uma traição ao chamado espírito de grupo, que equivale a dizer encobrimento. Naquele dia, Máxima percebeu que não conseguia se dar bem com todos os colegas.

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